Anjos em minha casa

Publicado: 14/09/2011 em Textos de Max Pond

“Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.”
Hebreus 13:02

 

Depois de uma grande tribulação que se abateu sobre minha vida, me mudei para o bairro de Artemis, que fica na região rural de Piracicaba, distante uns 20 quilômetros do centro da cidade. Não era muito confortável e a casa era antiga e cheia de defeitos. O forro de madeira era tão baixo que em dias de calor eu acreditava realmente que estava muito mais quente do que o normal.

Porém essa chácara era bem mais barata que um apartamento minúsculo na cidade, sem falar que eu poderia plantar, criar galinhas e comer um pouco melhor gastando bem menos. Deus na verdade estava me preparando coisas que realmente eu nem esperava, porque eram tempos muito difíceis, e eu estava cada vez mais longe da civilização, longe de tudo e de todos, porém Deus tinha tudo sob controle.

Foi quando vi um homem carrancudo e de semblante muito marcado pela vida. Ofereci o meu bom dia, mais ele não respondeu. Descobri que morava com sua esposa, uma mulher negra de idade avançada e com deficiência de locomoção, que quase nunca saia da janela de sua casa, ficava sempre com aqueles olhos grandes observando quem passava. Ele se chamava Antônio e sua companheira Maria.

Ele Tinha 65 anos e ela 76, não tendo filhos, viviam rodeados de dezenas de galinhas, alguns gatos e um cachorro vira-lata. Tentei por muitas vezes falar com o homem, porém em todas elas eu não tive sucesso algum. Perguntei para os vizinhos o que havia de errado com o homem e eles brincavam dizendo que eu deveria tomar cuidado, pois ele era um lobisomem, fazendo referencia a barba grande e ao cabelo bem comprido. Quanto à dona Maria, eu deveria tomar cuidado, pois se tratava de uma feiticeira que ficava a espreita na janela para escolher sua vitima.

Confesso que quando passava perto da casa deles, e via a senhora na janela, a cena era assustadora, pois o escuro do quarto se confundia a sua pele escura, dando apenas para ver seus olhos grandes ressaltados pelo escuro interno.

Cheguei a pedir a Deus algumas vezes que me desse a chance de conhecê-los para testemunhar do amor de Cristo para eles. Mas minhas orações pareciam não estar sendo respondida. Um dia, quando estacionava o carro, olhei para o lado do portão e assustei com a figura rude que estava ao meu lado; era ele, o homem que muitos temiam, outros odiavam, e como se já me conhecesse há muitos anos começou a falar como uma metralhadora descontrolada, e em menos de 20 minutos havia me contado toda sua vida. Sorriu, aliviado, me mostrando seus dentes. Alguns podres, alguns faltosos, mais um belo sorriso, rebuscado por suas rugas e manchas de sol em sua pele.

No dia seguinte passei por ele na rua, e novamente dei-lhe um bom dia, achei que já fossemos amigos, e sem olhar para mim, respondeu o bom dia, seguindo seu caminho empurrando o velho carrinho de mão cheio de lenha para o fogão.

Depois de muitos ensaios fui conhecendo aos poucos aquela figura digna de um livro. Abandonado em um abrigo para menores, passou a infância sem o pai, depois de ver a mãe morrendo. Trabalhou desde criança na roça, com todo tipo de trabalho pesado, sem ter ninguém por ele, sem família, sem recursos, aprendendo a tirar do rio seu alimento. Dona Maria foi a próxima a se aproximar, porém bem mais fácilmente. Confesso que fiquei com raiva dos que me passaram o falso currículo, pois era a criatura mais doce e amorosa que eu havia visto. Era cristã batizada, e ficava sentada na cama durante o dia inteiro tentando ler sua velha bíblia, pois ambos haviam aprendido a ler há pouco tempo, e tinham muita dificuldade pela falta de prática e a vista cansada, e ficava na beira da janela não para fazer conjurações malditas como todos pensavam, mais para aproveitar a luz externa para ler sua bíblia. Passei a levar a dona Maria nos cultos onde eu ia pregar, e ela ficava feliz como uma criança.

Descobri que passavam necessidade. Eu também, pois dependendo da obra para viver, comia quando recebia alguma cesta básica.

Um dia, chegou um irmão com o carro cheio de compras, e eu fui guardando aquela farta compra com os olhos marejados, pois já estávamos sem nada, e meus três filhos comiam como toda criança em fase de crescimento. Quando todas as compras estavam guardadas e os irmãos tinham seguido de volta para casa, o Espírito Santo me disse: “Filho, estas compras não são suas, mais são para seus vizinhos que estão passando maior necessidade que você!”.

Deus deveria estar me testando, não era possível! O que eu e meus filhos iríamos comer? Porém, obediente, eu e as crianças batemos palma na casa dos nossos vizinhos, e eles nos receberam maravilhados. O fogão à lenha estava aceso e avia apenas feijão e um pouco de arroz no fogo. Voltamos para casa com uma estranha sensação, como se estivéssemos cheios de gás, e pudéssemos flutuar. Felizes por obedecer a voz de Deus.

Pela manhã, fomos surpreendidos com irmãos chegando em nossa casa com uma compra três vezes maior que a primeira, e com mimos infantis, como iogurte, leite, achocolatado etc.

Nossa amizade foi ficando maior, e cada dia, fui me sentindo responsável por eles. Dona Maria me acompanhava em todos os cultos e visitas. Seu Antônio me ensinou a pescar, me deu algumas galinhas já com pintinhos e o seu galo mais bonito. Eu o levei a primeira vez em um salão de barbeiro, e me assustei quando saímos de lá, havia um ser humano debaixo de todo aquele pelo. Começamos a ter uma vida em comunidade. Sempre que ele precisava de mim, as vezes para tarefas simples como discar um numero no telefone, pois eles tinham dificuldades até para isso, como passar a noite com um deles em um hospital, la estava eu, pronto para mais uma missão. Eles cuidavam da chácara quando eu viajava, e sempre que podiam me serviam com algo que produziam em sua humilde chácara.

Comecei a sentir um amor sobrenatural pelos dois, ao ponto que quando passava um dia sem vê-los, o dia não era o mesmo.

Porém meus demais vizinhos passaram a me excluir. Um deles até me xingou, por eu não ter dado ouvidos a instrução maléfica e diabólica que me deram a respeito do doce casal de velhinhos.

À três anos moro ao lado deles, e sempre recebo ovos, frutas, peixes e muito carinho desses dois anjos que moravam ao meu lado, e que muito me ensinaram sobre amor cristão. Estou cada dia mais aprendendo com eles a me alegrar com as coisas simples da vida, e dar valor aos anjos que Deus coloca em nossas vidas como um presente sagrado, e que muitas vezes não percebemos.

Sou grato a Deus por ter conhecido essas pessoas, que ao contrário da maioria, não estão ao meu lado por interesse, apenas gostam de estar ao meu lado, e isso é maravilhoso.

Pr. Max Pond

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